Na história do Senado, poucos parlamentares ouviram tantos elogios rasgados dos colegas no Plenário quanto o pouco conhecido Taciano de Melo (PSD-GO) naquela sessão em 10 de janeiro de 1961. O senador renunciava ao posto, após dois anos de mandato, para tornar-se ministro do recém-criado Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF). (Foto ilustração)
O senador Mendonça Clark (PR-PI) afirmou “lamentar sinceramente a saída” de Melo. Segundo Francisco Galotti (PSD-SC), ele deixaria uma “recordação perene”. Alô Guimarães (PSD-PR) chamou o companheiro de “homem de fibra e dignidade”. O vice-presidente do Senado, Auro de Moura Andrade (PSD-SP) o descreveu como “patriota profundamente dedicado aos seus deveres mais recônditos, aqueles mais escondidos, mais íntimos, deveres de consciência”.
A profusão de aplausos, na realidade, não decorreu das virtudes do senador, mas de sua decisiva participação numa manobra para beneficiar o então presidente da República, Juscelino Kubitschek. Melo abriria mão do mandato para ser ocupado por JK, que deixaria a Presidência dali a três semanas.
Um dos últimos atos do presidente foi dar a Melo um assento no Tribunal de Contas da nova capital, retirando-o do Senado. O suplente, Sócrates Diniz (PSD), havia falecido no ano anterior. Com a renúncia, a população de Goiás seria convocada para uma eleição extraordinária em 1961, com JK na disputa. Ele, de fato, seria eleito senador.
Esse é um dos episódios menos conhecidos da carreira de JK. Neste mês, a morte do presidente completa 50 anos. Ele foi vítima de uma acidente de carro na Rodovia Presidente Dutra, no caminho de São Paulo para o Rio de Janeiro, em 22 de agosto de 1976.
Documentos históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que o arranjo político que levaria JK ao Senado não era segredo. Vivaldo Lima (PTB-AM), dirigindo-se a Taciano de Melo, discursou:
— Vossa Excelência, renunciando ao mandato de senador, que conta mais seis anos, priva a nação dos grandes serviços que poderia esperar de Vossa Excelência. Adotando, porém, esse gesto altamente dignificante, Vossa Excelência se sacrifica para que o presidente da República, ao findar seu governo, venha fazer parte desta Casa, a fim de que, daqui, aprecie um dos monumentos de sua obra administrativa [Brasília].
O próprio Melo admitiu a manobra:
— Quero deixar o testemunho perante Cristo de que o ensejo que estou dando ao grande presidente para assumir uma cadeira no Senado da República é para que Sua Excelência continue no objetivo de conduzir nosso país a seus destinos gloriosos.
Embora tenha sido governador de Minas Gerais, prefeito de Belo Horizonte e deputado federal por sua terra, JK optou por Goiás por dois motivos: não encontrou senador mineiro disposto a renunciar e desfrutava de grande prestígio entre os goianos, já que a construção de Brasília favoreceu diretamente o estado. O senador Coimbra Bueno (UDN-GO) explicou. (Agência Senado)

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