O sindicalista e candidato a deputado federal pelo PT, Deyvid Bacelar, foi um dos palestrantes neste domingo (13/9) da aula inaugural do projeto Jovens Comunicadores, realizada na Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA). (Foto ilustração)
Ao lado da candidata a deputada estadual Vilma Reis, Bacelar foi um dos responsáveis por viabilizar o projeto na capital baiana, enquanto membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (CDESS) do governo Lula, o Conselhão.
“O projeto é uma iniciativa da Uneafro e está possibilitando a formação prática em mídia comunitária, cidadania e pensamento crítico da juventude negra da Bahia”, explicou Bacelar.
Com duração de 10 meses, o Jovens Comunicadores oferece formação prática e gratuita em jornalismo comunitário, produção audiovisual, podcasting e gestão de mídias digitais para estudantes de escolas públicas e periferias. Os participantes receberão uma bolsa estímulo para garantir a permanência no curso.
Para jovens de comunidades da periferia de Salvador – onde muitas vezes faltam creche, teatro, cinema e equipamentos culturais, como lembrado durante o evento – o programa representa mais que um curso técnico. É a possibilidade de transformar o celular, que hoje concentra desinformação, em instrumento de trabalho, renda e defesa do próprio território.
De acordo com o idealizador do projeto, o historiador paulista Douglas Belchior, a ideia é democratizar a informação. “É preciso capacitar jovens para que se tornem protagonistas de suas próprias narrativas”, afirmou.
“Além do aprendizado técnico, a iniciativa foca no letramento midiático para combater a desinformação e na valorização das culturas, memórias e demandas locais frequentemente invisibilizadas pela imprensa tradicional”, resume Belchior. “A comunicação é uma ferramenta de poder e transformação. Quando damos espaço, suporte e técnica para que a juventude conte a sua própria realidade, deixamos de ser apenas espectadores e formamos agentes reais de mudança social”, completou Zósimo Ferreira, coordenador geral da iniciativa na Bahia.
Durante a aula inaugural foi formada uma mesa com as presenças do reitor da UFBA, João Carlos Salles, do fundador da Uneafro Brasil, Douglas Belchior, da professora e ativista Mirela Novais – que representou Vilma Reis, em campanha na Chapada Diamantina – e de Zósimo Ferreira.
Bacelar destacou ter conhecido Belchior nas atividades do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (CDESS) e enalteceu a iniciativa do presidente Lula de levar representantes de movimentos sociais e sindicais para o Conselhão.
“Lula nos deu vez e voz no Conselhão. Por isso estou hoje aqui. Nesse momento conjuntural enfrentamos o ataque do imperialismo estadunidense, que quer roubar as nossas riquezas e a nossa soberania. O que foi feito na Venezuela, aqui do nosso lado, não é algo distante de nós”, ressaltou.
A um público de mais de 100 futuros participantes, o sindicalista alertou para a disputa eleitoral nas redes. “O Instagram e o Facebook são dos norte-americanos e a disputa eleitoral mais uma vez, este ano, se dá através dos celulares. Precisamos criar outros instrumentos e ferramentas para nos contrapormos ao que o imperialismo faz aqui”, disse.
“É inadmissível que Flávio Bolsonaro tenha 37 pontos nas pesquisas, nunca deu um prego numa barra de sabão. Mas consegue chegar a esse patamar porque os celulares estão sendo muito utilizados com fake news. Veja o que nossas tias e avós recebem de mensagem nos celulares. Nas pesquisas estamos perdendo o jogo entre a população que está entre 16 e 29 anos”, frisou.
Bacelar falou da importância de cada jovem multiplicar informações. “É preciso se indignar diante da injustiça, mas uma boa parte da juventude não tem essa consciência de classe. Muitos não viram o que era o Brasil antes dos governos do PT, não conheceram a Bahia de Antônio Carlos Magalhães. Estamos numa guerra insana contra a extrema direita internacional. O Brasil é o B do BRICS e Lula é o maior estadista do mundo hoje”, defendeu.
“Faço um apelo para que a gente se engaje e caia de cabeça nessas eleições. Será que a gente vai ter uma universidade pública se Lula perder? Hoje temos seis universidades federais na Bahia, só tínhamos uma. E temos 37 escolas técnicas, também só tínhamos uma”, completou.
Perguntado sobre o empate técnico entre eleitores de 16 a 29 anos apontado pela pesquisa AtlasIntel divulgada na última sexta-feira (11/9), Belchior avaliou que a disputa pelo imaginário da juventude é desigual. “A gente precisa continuar fazendo um trabalho de campo e de base, permanente, chegando às famílias, marcando presença no cotidiano das pessoas. Quando Bolsonaro foi eleito, ele fazia um discurso radicalizado contra as mídias tradicionais. A posição de Bolsonaro contra a Globo, por exemplo, eu queria que o meu presidente falasse aquilo. Mas quando você pega os quatro anos de governo Bolsonaro, houve um investimento massivo nas mídias alternativas da extrema direita que o sustentava. E quando a gente tem agora a experiência do nosso governo, temos um montante enorme investido na comunicação tradicional e você não tem a mesma proporção investida na comunicação alternativa ao nosso lado”, lamentou.
“Chega então na hora da eleição e a gente fica apavorado porque não tem um resultado. A gente cuidou da terra? Cuidou da semente?”, questionou. Belchior também criticou a condução dos pontos de cultura no atual governo: “Eram bolivarianos e revolucionários nos dois primeiros governos do presidente Lula, mas comparados com o que foi feito neste governo atual, deixam a desejar. Não foi mais uma prioridade”.
Para o reitor João Carlos Salles, a universidade precisa estar de portas abertas para esse tipo de projeto. “É uma honra que ela esteja abrigando essa atividade. Esse lugar precisa ser ocupado pela sociedade e precisa ser sensível às demandas sociais”, disse.
“A universidade pública vem sendo sistematicamente atacada pelas elites que não gostam do nosso enegrecimento, da defesa que fazemos da vida das pessoas. Saudar o projeto Jovens Comunicadores é escutar a democracia onde ela está, nas redes sociais, nos espaços mais diversos, fazendo o letramento necessário para que a afirmação da verdade seja a nossa pauta”, afirmou.
“A UFBA é a porta do conhecimento, não da ignorância; da vida e não da morte, da solidariedade, da amizade, contra o ódio, o medo e o ressentimento”, completou.
Belchior ainda ressaltou o peso cultural de Salvador. “O incrível poder negro que Salvador representa. A cultura, a religiosidade, olho pra vocês com admiração. A gente se alimenta, no Brasil, com a história do movimento negro da Bahia”, disse. “Este projeto é uma chance de relacionar os jovens com um movimento mais amplo do país e do mundo. Temos conexões com o povo negro norte-americano, colombiano, da África do Sul, de Gana. Vocês podem fazer parte disso e levar Salvador para outros lugares”.
Organizadora do evento, a Uneafro Brasil oferece aulas gratuitas com professores voluntários para preparar estudantes de escolas públicas para o ENEM, vestibulares e concursos, e mantém núcleos de cultura, esporte, capoeira e direitos humanos. Entre suas atividades está a articulação da Coalizão Negra por Direitos.
A professora Mirela Novais destacou a importância da formação: “Este projeto já existia com os defensores e defensoras populares e agora tem esse braço para a formação de comunicadores. É muito importante a gente se perguntar quem tem direito de contar a história, quem pode contar a história e que histórias são contadas”, destacou. “Eles nos contam a história que eles produziram, eles mesmos narram e contam pra gente como verdade. Esse curso não é só pra gente pensar onde as pessoas negras podem chegar. É para que a gente desenvolva uma fabulação crítica e não se sente em uma cadeira supostamente confortável onde a branquitude insiste em nos colocar. Esse curso vai trazer aulas de direitos humanos, construção de textos, mídia. Isso é revolucionário”, afirmou.
Em vídeo, Vilma Reis saudou a construção de uma mídia popular “que venha dos terreiros, dos quilombos, dos territórios”, na linhagem de ações do Ceafro e do jornal do Beiru, organizado pela professora Márcia Guena, para enfrentar “a sabotagem contra a juventude negra, contra a falta de creche, de investimento, ausência de um teatro, de um cinema e políticas públicas libertadoras nas comunidades”.
Ao final, Zósimo Ferreira reforçou a metodologia: encontros semanais online para mapear o que falta na comunidade. “Quero que permaneçam juntos e percebam que podem ser um jovem defensor dos direitos da sua comunidade, olhando para os problemas. Organizar e fortalecer a nossa comunidade, percebendo os problemas e buscando soluções”, disse.
O projeto foi viabilizado por meio da Fundação Banco do Brasil, com articulação de Vilma Reis em Brasília e de Deyvid Bacelar no Conselhão. A UFBA disponibilizou wifi gratuito no auditório da Faculdade de Arquitetura para os participantes. (Ascom/Dayvid Bacelar)


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