No dia seguinte após ser afastado, em boa hora, da liderança do governo no Senado, o ex-líder concedeu uma entrevista que rendeu duas páginas e manchete em letras garrafais na capa da Folha de São Paulo. Uma atitude intempestiva e inusitada que causou, no mínimo, estranheza geral.
No conteúdo das respostas, insiste e persiste em argumentos que não ajudam a continuidade das investigações, nem ao governo que julga defender e até a ele próprio. Faz lembrar a máxima do Barão de Itararé, segundo o qual o problema não está “na falta de persistência, mas na persistência da falta”.
Ao insinuar que a Polícia Federal “tenta construir uma narrativa para envolver o PT”, se contrapõe a um trunfo do Governo Federal, para quem a polícia é uma instituição do Estado. Que alcança prestigio popular exatamente por não ser pretoriana, que só investiga os “inimigos” dos poderosos do momento.
Ao dizer: “desconheço um prefeito ou um governador que não converse com empresários”, repete juízo comum a todos os que se lambuzam na geleia geral. Nada contra conversar com empresários, desde que o assunto não seja ingressos para show, carona em jatinhos ou recompra de apartamentos luxuosos.
Ao negar com argumentos precários irregularidades patentes, a entrevista desastrosa ocupa lugar de destaque na tentativa de normalizar relações incestuosas com o Comando Vorcaro. Ataca os investigadores e defende os que precisam ser investigados. Para estes, valei-nos de novo o Barão de Itararé: “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lugar lhe vem”.
A ética e a política são invenções humanas de importância decisiva para o ordenamento da vida em comum. A relação entre as duas, com a crise que se espalha nos tentáculos do Escândalo Master, está na ordem do dia. O futuro da democracia se define, hoje mais do que nunca, pelo lugar da ética na política. (Texto: deputado federal Chico Alencar – Charge: @claytoncharges)

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