Em instantes, eles abordam passageiros nas filas de ônibus, negociam a passagem com descontos, entregam cartões em nome de outras pessoas e, depois, os recolhem pela janela. Os chamados “valeiros” estão no centro de um esquema de fraudes de venda irregular de passagens e integram uma rede que engorda um rombo anual de R$ 162 milhões no sistema de transporte público da capital federal. Recursos que deveriam ser destinados à melhoria dos coletivos, à infraestrutura, ao aumento da frota e à ampliação das linhas são desviados por uma máquina clandestina. (Foto ilustração)
Com um crachá falso no pescoço, eles escolhem os horários de pico, caminham entre as filas extensas de passageiros e erguem o braço para mostrar o cartão e anunciar a venda da passagem por um preço menor. São dezenas de cartões presos a uma liga de plástico: mobilidade, estudantil e especial.
“Passagem, amigo? Consigo fazer mais barato. É você e sua filha? No normal, você paga R$ 7,60. Eu deixo por R$ 7 para os dois”, diz o valeiro a um homem. Tentado, ele aceita. O passageiro paga em dinheiro e passou a catraca junto à filha com o mesmo cartão. Em seguida, entregou ao vendedor pela janela.
A reportagem conversou com o comprador logo depois. Ele justificou a compra ao dizer que a fila para recarregar o próprio cartão estava longa e corria o risco de perder o ônibus. “Ele fez mais barato, né? Não custa nada”, declara.
A equipe do Correio simulou a compra de um bilhete com o mesmo vendedor. Dessa vez, ele não barateou e cobrou o mesmo valor: R$ 3,80.
Prejuízo
O crime aparentemente pouco ofensivo é um rombo nos cofres públicos e ameaça diretamente aos investimentos no setor de transporte. Enquanto “valeiros” lucram milhões, passageiros têm de lidar com ônibus lotados, poucas linhas e estrutura prejudicada nos terminais, embora parte do problema esteja debaixo dos próprios olhos.
O secretário da Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob), Zeno José Andrade, conversou com o Correio sobre a venda ilegal de passagens, problema que perdura há anos. O chefe da pasta abordou sobre pontos de detecção da fraude, prejuízos financeiros, métodos de combate e apontou possíveis soluções.
O custo anual do transporte público na capital federal é de aproximadamente R$ 2,7 bilhões. Esse valor subsidia todo o sistema, desde a ampliação da frota aos custos com campanhas de conscientização. No entanto, nesse mesmo período, o governo perde pouco mais de R$ 162 milhões — 6% do orçamento — por fraudes. Isso inclui a ação dos “valeiros”. “Toda vez que se retira da receita, afeta o equilíbrio do sistema, porque o governo precisa pagar a operadora. Ou seja, deixamos de arrecadar para repor o valor”, ressalta o secretário Zeno.
Além dos cartões de vale-transporte, os criminosos usam os cartões das gratuidades, como o Passe Livre Estudantil (PLE), cartão do idoso e o cartão para Pessoas com Deficiência (PCD). São nesses que os suspeitos lucram 100%. “Percebemos que existe uma rede criminosa em que os envolvidos se ajudam de certa forma. Precisamos melhorar a vigilância por câmeras dentro dos ônibus. Não há como combatermos sem investir em tecnologia. Com essas câmeras, eu consigo otimizar o tempo entre a detecção da fraude e o bloqueio do cartão”, ressalta o secretário Zeno.
A regra é clara: os cartões só podem ser utilizados pelo titular do benefício. O uso por terceiros é proibido e leva ao bloqueio. O secretário explica que há duas fontes de detecção de possíveis fraudes. No caso dos vales sem taxas e no de vale-transporte, a fiscalização é pela biometria. A cada uso, as câmeras captam o rosto do usuário e o sistema avalia a existência de pontos de divergência. (Darcianne Diogo)

No Comment! Be the first one.